quinta-feira, 10 de junho de 2010

II - OLHOS TRISTES

     Padre Abel sentava-se todas as manhãs no confessionário numa espera inútil e abafada. Fazia muito tempo que ninguém o procurava para se confessar. A igreja, praticamente em ruínas, encontrava-se há muito abandonada pelos moradores descrentes do vilarejo. E até mesmo as missas conseguiam atrair apenas duas ou três almas. Lá dentro tudo cheirava a velho. Até os pensamentos.
     Em frente, na pequena praça calçada de pedras havia um cajueiro secular, imponente, de folhas multi-coloridas. As folhas novas tinham a cor do vinho e eram brilhantes. Aos poucos iam tornando-se verdes - escuras e tranqüilas. As decrépitas, amarelas, caiam, formando um tapete macio. E era à sombra convidativa desse cajueiro que se abandonava padre Abel, no começo da tarde, refugiando-se do ambiente sufocante e mofado da igreja.
     Ao lado do tronco, num banco amarelo plantado num dia quente de setembro, cinquenta e quatro anos antes, logo vinham encontrá-lo o delegado Vicente, o sapateiro, "seu" Anselmo e o farmacêutico, "doutor" Joselio ou um dos outros moradores, para um dedo de prosa e as renhidas partidas de gamão.
     Padre Abel era invencível no gamão As línguas ferinas espalhavam que se ele rezasse missa como jogava gamão decerto levaria mais fiéis à igreja. Realmente, padre Abel jogava muito bem. Os dados pareciam fazer-lhe as vontades, deixando sempre para cima os números de que precisava. Em seus dedos gordos mas ágeis, os dados estalavam e as pedras mudavam num ritmo quase mecânico. Fazia gosto vê-lo jogar, entremeando suas jogadas com as frases em latim, decoradas do seu missal, na fala macia e os gestos mansos.
     Foi num dia três, também de setembro, numa tarde de céu claro, em que nenhum vento soprava, com um calor forte que se esparramava por todos os cantos, qual líquido viscoso , que por ali apareceu um homem , alto, pele queimada pelo sol, de olhos claros e tristes. Ninguém viu de onde ele veio ou como ele chegou. Só o perceberam quando ele se aproximou da reunião, à sombra do cajueiro. Cumprimentou os presentes e ficou em pé, observando a animada partida entre o padre e o sapateiro. O padre ganhou, naturalmente. Levantando a cabeça, deu com os olhos do estranho. O convite saiu ligeiro :
     - O senhor joga gamão ?
     Antes que "o moço" pudesse responder, seu Anselmo, um negro alto e bem vestido, levantou-se, cedendo seu lugar para ele, que ficara visivelmente constrangido. Logo se formou uma multidão em volta, atraída pela notícia de que o padre fôra desafiado por um viajante. Os que presenciaram o acontecido não se lembram exatamente como ou quem propôs uma aposta. Mas todas as versões concordam que o padre, de tão confiante, respondeu que a dinheiro não jogava mas que, se ganhasse, abençoava o oponente e, se perdesse (ainda hoje muitos juram que, nessa hora, fez um ar de riso, muito significativo), amaldiçoava o cajueiro.
     Jogaram três partidas e o padre não conseguiu vencer nenhuma. Contrariado, com o rosto congestionado, padre Abel ergueu-se. Suando frio , voltou-se para o tronco da árvore e proferiu :
     - Prometi e terei que cumprir. Se minha arrogância não tivesse me cegado, se eu pudesse perceber que um dia teria de aparecer por estas redondezas alguém capaz de me vencer, na certa apostaria minha vida e não a sua, meu amigo cajueiro. Ninguém aqui vai sentir mais sua falta do que eu. É como se eu fôsse perder um pedaço de mim. Mas empenhei minha palavra de padre. Portanto, SECA E MORRE !
     Três meses depois, do cajueiro somente ficou a galharia seca se quebrando com o vento, como o esqueleto de um animal gigantesco a se desfazer aos poucos. Padre Abel continuou sentado no confessionário, esperando pelos fiéis que nunca apareceram. Mas, não mais dobrou os sinos nem rezou as missas que ninguém assistia. Adoeceu de tristeza e um ano depois teve sua última vontade cumprida, indo fazer companhia ao cajueiro, na praça.
     Quanto ao forasteiro, desapareceu tão misteriosamente quanto havia surgido. Nunca se soube por que veio. Alguns juram que foi castigo dos céus. Outros garantem que foi coisa do demo.

     Chove forte, agora.
     As gotas, batendo na janela de madeira, no chão de cimento rústico, molham as lembranças, lavam as tintas do passado.
     Um emaranhado de cheiros, de sons, de cores, se confundem, se perdem.
     A porta com tela de arame da cozinha, pintada numa cor escura - fruto da mistura de todas as cores - , a mesa pequena, de madeira, do outro lado da cozinha, pintada de verde, com duas cadeiras, também de madeira, que a ladeavam. O fogão com esmalte descascado estrategicamente colocado sob a janela pequena, iluminando do alto da parede a pia de granito, com buracos cavados pelo tempo, encimada pelo filtro de barro, de onde sempre saía, interminável – mágica -, a água com gosto marcante.
     A chuva escorrendo pelos degraus da escada que findava junto à porta da cozinha, próxima do tanque de cimento revestido com azulejos desbotados. As gotas da mesma chuva que batiam nas poças, no chão de cimento queimado, no canteiro com hortelã. Ah, a hortelã. O cheiro das folhas misturado ao cheiro do cachorro molhado que procurava refúgio sob as telhas de zinco, que escondiam sua casinha de restos de madeira, arrastando a pesada corrente que o mantinha longe da cozinha, para onde ele correria, se não existissem os grilhões.
     O cheiro da hortelã, o cheiro do cachorro, os cheiros da cozinha, o cheiro da terra molhada. Da grama. Da chuva no cimento.
     Os sons da corrente do cão, arrastada impacientemente. Os sons da chuva, castigando docemente a terra, o canteiro de ervas, as telhas de barro que recobriam a área de serviço improvisada, a tampa da lata de lixo, colocada sob a mureta defronte à porta. Os sons da mesma chuva, dessa vez barulhentos, sobre o chão, sobre os degraus da escada, nos vidros da janela. Vez ou outra, um trovão ao longe, pressentido pelo rogo aflito da avó e acompanhado pelo sinal da cruz!
     As luzes apagadas, cobertores escuros colocados sobre os espelhos, as panelas guardadas sob a pia.
     Hoje as luzes também estão apagadas. Dessa vez não por precaução. Ele tenta recuperar, no escuro, as luzes de outros tempos. Os sons lhe trazem vagamente as lembranças. Mas os cheiros são outros. Não existem mais canteiros de hortelãs e as latas de lixo barulhentas. Nem cães ou correntes.
     As gotas continuam a levantar bolhas quando batem nas poças do chão. Mas é outro chão. Mais distante. Mais frio.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

I - PAREDES NUAS

     Todos tinham o mesmo credo. Todos se pareciam na pobreza. Ela os aproximava, tornava-os irmãos. 
     As peles tostadas pelo sol inclemente, os cabelos ressequidos e compridos, os corpos arqueados de tanto assim permanecerem para apanharem no lixo seu sustento, os olhos inexpressivos e sem esperanças; tudo fazia com que se tornassem filhos dos mesmos pais, escondendo sob a grossa casca da dor e da sujeira, a máscara costumeira da miséria, diferenças nada sutís.
     Compartilhavam da mesma água, do mesmo sal e dividiam os poucos alimentos obtidos. Suas roupas puídas e desbotadas pareciam provir dos mesmos tecidos.
     Até seus sonhos eram os mesmos, espelhando a dura rotina diária a que se submetiam.                           

     Cosme piorara depois da morte de sua mulher. Ela sofria com problemas cardíacos e, após tantos sustos que ele causara, o último, quando fora atropelado por um ônibus ao atravessar , distraído, a rua em direção ao bar, lhe provocara um ataque ao qual ela não resistira. Cosme voltou para casa e, não encontrando sua esposa, não se desesperou, pensando que ela o houvera abandonado mais uma vez.
     Os dias foram passando e Cosme, cada vez mais alienado pela bebida, nem prestara atenção nas roupas de sua esposa, que permaneciam intocadas no armário. Nem mesmo as palavras de pesar que lhe eram dirigidas por amigos e vizinhos lhe revelaram o verdadeiro destino dela.
     A família achara melhor que alguém ficasse ao seu lado para lhe fazer companhia e, com esse pretexto, um sobrinho passara a residir com Cosme. O convívio com o sobrinho, entretanto, não alterara suas atitudes.  Ao contrário, acabou encontrando nele um bom parceiro para suas bebedeiras e aventuras. 

     Por quanto tempo teria de desperdiçar seu talento daquela forma?     Não que houvesse se arrependido por ter aceito aquele emprego. Afinal, precisava do dinheiro. Mas, no início, chegara a pensar que alguém notaria a diferença que existia entre ela e os demais repórteres do matutino. Seu estilo, sua cultura ... Como poderiam compará-la com aqueles caipiras? E ainda por cima só lhe davam casos insignificantes... Como poderia trabalhar em algum grande jornal, se não tinha oportunidade de brilhar neste, nanico? Brigas de vizinhos, festas de santos, enterros ilustres; o que podia fazer em suas matérias para torná-las melhores e mais interessantes do que realmente eram ? Por que os crimes violentos, os casos mais espetaculares tinham de ser cobertos por homens ?
     Delirava , imaginando o que faria com um caso sangrento ou com um bom escândalo político.
     Mas não, agora a enviavam para mais uma matéria sem importância, sobre alguns mendigos que haviam adoecido, sabe-se lá por que motivo. O que havia de tão inusitado naquilo?
      Os pensamentos de Chris foram interrompidos por uma ordem, em tom rude, para que se apressasse. Que o hospital estava uma bagunça. Que tinha gente sendo atendida até no corredor! E que, chegando lá, ela não se esquecesse de tirar umas fotos para ilustrar a matéria.
     Ainda por cima, isso ! Ela nem era fotógrafa, era repórter! E com aquela máquina, não ia fazer muita diferença! Além do mais, prá que correr, se a matéria não teria nenhum destaque ?

     Caminhara pela praia, disperso e nostálgico, como fazia desde que chegara de sua "outra vida", havia cinco anos. Seguindo a rotina que se impusera, sentara-se naquela pedra , que já considerava sua, e ficara observando com indiferença o cenário que já lhe era tão familiar. Sentia que aquele ponto solitário era um lugar diferente do resto do povoado.
     Um bando de gaivotas fazia evoluções sobre os barcos na baía, elevando seus grasnidos acima dos roncos das ondas que batiam na praia e do vento forte que dobrava os coqueiros atrás dele, numa grande algazarra. Observou alguns urubus, num andar pesado mas elegante, disputando alguns restos na areia da praia.
     O passado teimava em latejar no seu cérebro, apesar dos nomes e, principalmente, dos rostos ficarem cada dia mais distantes. Pensava, naquele momento, como tantas coisas haviam acontecido em tão pouco tempo. E como os fatos teimavam em se repetir, como as ondas do mar, que, apesar de tão diferentes umas das outras, são tão previsíveis.
Um grupo de crianças brincava na praia, num ruidoso alvoroço. Mais adiante alguns homens trabalhavam num barco e as batidas ritmadas de martelos as vezes eram trazidas pelo vento. O mesmo vento que também lhe trazia o cheiro dos peixes a pouco retirados das redes recolhidas pelos pescadores.
     Vieram-lhe à memória os momentos em que ali estivera pela primeira vez, ainda numa outra realidade. Lembrava-se, com certo gôzo, dos momentos prazeirosos que passara, sentado naquela praia, embalado por algumas doses de cerveja e pelos doces rumores da natureza à sua volta.
     Avistou uma figura que se dirigia lentamente para aquele canto da praia. O vento embaraçava seus cabelos e colava a saia nas pernas, revelando deliciosas formas femininas. Seu coração acelerou diante daquela visão. Os cabelos loiros emaranhados, o colorido das roupas e a leveza dos movimentos lhe turvaram os olhos que ansiosos procuraram mais algum detalhe que confirmasse a doce ilusão.
     Sentindo-se tonto, deixou-se cair sentado sobre a pedra, voltando seus olhos para baixo. O suor, a camisa grudada na pele, o tempo parado...
     Uma sombra cobriu suas pernas. Ergueu os olhos , o rosto virado para o sol, e viu o vulto da mulher que se projetava defronte da luz ofuscante e, aos poucos, ia tomando forma . Durante intermináveis segundos tudo ficou estranhamente silencioso e as batidas de seu coração pareciam ecoar por todo o cenário.
     - Bom dia ! - cantou , com voz melodiosa, a suave aparição.

     Aquele seria mais um dia terrível. Tanta dor. Tanta miséria. Algum tempo atrás achava impossível que pudesse resistir a tudo aquilo. Que pudesse, um dia, se acostumar. No entanto, hoje, aquelas cenas faziam parte da sua rotina e estranhava até, quando elas tardavam a acontecer.
     Sentia, entretanto, que algo de anormal acontecia ali. Havia alguma coisa no ar, como se , de repente, tudo fosse mudar. Sabia estar prestes a testemunhar um fato que mudaria para sempre a vida daquela comunidade. Nunca, nem mesmo quando ocorrera o incêndio no cais do porto ou o naufrágio do barco de turistas , presenciara tanto movimento nos corredores do hospital.
     O que, no começo, lhe parecera mais um simples caso de intoxicação alimentar, pela ingestão de peixe ou outro alimento contaminado - caso muito comum naquelas paragens, dada a absoluta e compreensível falta de higiene da população - havia se revelado uma verdadeira tragédia. Não haviam mais leitos disponíveis e os pacientes que continuavam a chegar eram enfileirados em macas no chão do corredor. Muito choro de criança e um cheiro azêdo, misto de urina e vômito, tomavam conta do ambiente, provocando náuseas nos que ali se encontravam apenas acompanhando outros doentes.
     Ainda por cima, como se não bastasse tudo aquilo, agora tinha sido destacado para atender as solicitações de esclarecimentos da imprensa da região. Sabia que precisaria de muita paciência no trato com jornalistas, mas a exaustão em que se encontrava e a rudeza que o calejara durante tanto tempo de contato com toda aquela pobreza, teimariam em se adiantar, como sempre, nas respostas que daria as perguntas imbecís que lhe fariam.

     No meio dos desertos imensos dos leitos dos açudes de lama ressequida , seres humanos disputavam as poças de água salobra com os animais enfraquecidos, de ancas arriadas e o couro rebentando pelos ossos pontudos. Urubus banqueteavam a carcaça de um boi, na beira da estrada esburacada, pela qual poucos se aventuravam.
     Na entrada de uma vila, que uma placa teimosamente chamava de cidade, a cidade de Santa Ana, os obstáculos colocados na pista para diminuir a velocidade dos veículos soavam como fina ironia. Chris diminuiu a marcha, de qualquer forma, mais pela curiosidade que alguns meninos despertaram.
     Posicionados ao lado dos obstáculos, procuravam vender saquinhos com frutas de nomes de difícil memorização. Meninos anêmicos, frágeis, angulosos, esculpidos no barro de um hábil artesão. Caranguejos, dependurados num cordão, se debatiam nas mãos de um dos garotos que, com seus dezessete anos, padecia num corpo de oito.
     As casas, todas de igual tamanho e formato, pobres e empoeiradas, muitas delas abandonadas, denunciavam o crime do assentamento de famílias de diferentes partes do país em terras áridas e sem nenhuma infraestrutura. Fora numa época de milagres econômicos, do qual aquela estrada foi uma das maiores bandeiras e na qual divídas gigantescas foram asfaltadas e muitas fortunas consolidadas.
     De repente, de trás duma jurema sêca cortou a estrada, desajeitado, um lagarto. Chris bem que tentou desviar, mas o bicho correu para a trilha da roda. Com o coração aos pulos, ela inda viu pelo espelho o animal se estrebuchando na pista. Dum juazeiro teimoso lamentou uma juriti.
     Uma carroça, puxada por um animal desnutrido e guiada por um velho que não sonhava, se arrastava mais adiante com dois barrís de água por entre as casas e almas castigadas pelo calor . Alguns quilometros antes ela vira a cacimba, onde provavelmente havia abastecido os barrís.
     E o out-door, em cores fortes, colocado estratégicamente na saída da vila, mandava que se bebesse o refrigerante da multinacional. Sempre.