quarta-feira, 2 de junho de 2010

I - PAREDES NUAS

     Todos tinham o mesmo credo. Todos se pareciam na pobreza. Ela os aproximava, tornava-os irmãos. 
     As peles tostadas pelo sol inclemente, os cabelos ressequidos e compridos, os corpos arqueados de tanto assim permanecerem para apanharem no lixo seu sustento, os olhos inexpressivos e sem esperanças; tudo fazia com que se tornassem filhos dos mesmos pais, escondendo sob a grossa casca da dor e da sujeira, a máscara costumeira da miséria, diferenças nada sutís.
     Compartilhavam da mesma água, do mesmo sal e dividiam os poucos alimentos obtidos. Suas roupas puídas e desbotadas pareciam provir dos mesmos tecidos.
     Até seus sonhos eram os mesmos, espelhando a dura rotina diária a que se submetiam.                           

     Cosme piorara depois da morte de sua mulher. Ela sofria com problemas cardíacos e, após tantos sustos que ele causara, o último, quando fora atropelado por um ônibus ao atravessar , distraído, a rua em direção ao bar, lhe provocara um ataque ao qual ela não resistira. Cosme voltou para casa e, não encontrando sua esposa, não se desesperou, pensando que ela o houvera abandonado mais uma vez.
     Os dias foram passando e Cosme, cada vez mais alienado pela bebida, nem prestara atenção nas roupas de sua esposa, que permaneciam intocadas no armário. Nem mesmo as palavras de pesar que lhe eram dirigidas por amigos e vizinhos lhe revelaram o verdadeiro destino dela.
     A família achara melhor que alguém ficasse ao seu lado para lhe fazer companhia e, com esse pretexto, um sobrinho passara a residir com Cosme. O convívio com o sobrinho, entretanto, não alterara suas atitudes.  Ao contrário, acabou encontrando nele um bom parceiro para suas bebedeiras e aventuras. 

     Por quanto tempo teria de desperdiçar seu talento daquela forma?     Não que houvesse se arrependido por ter aceito aquele emprego. Afinal, precisava do dinheiro. Mas, no início, chegara a pensar que alguém notaria a diferença que existia entre ela e os demais repórteres do matutino. Seu estilo, sua cultura ... Como poderiam compará-la com aqueles caipiras? E ainda por cima só lhe davam casos insignificantes... Como poderia trabalhar em algum grande jornal, se não tinha oportunidade de brilhar neste, nanico? Brigas de vizinhos, festas de santos, enterros ilustres; o que podia fazer em suas matérias para torná-las melhores e mais interessantes do que realmente eram ? Por que os crimes violentos, os casos mais espetaculares tinham de ser cobertos por homens ?
     Delirava , imaginando o que faria com um caso sangrento ou com um bom escândalo político.
     Mas não, agora a enviavam para mais uma matéria sem importância, sobre alguns mendigos que haviam adoecido, sabe-se lá por que motivo. O que havia de tão inusitado naquilo?
      Os pensamentos de Chris foram interrompidos por uma ordem, em tom rude, para que se apressasse. Que o hospital estava uma bagunça. Que tinha gente sendo atendida até no corredor! E que, chegando lá, ela não se esquecesse de tirar umas fotos para ilustrar a matéria.
     Ainda por cima, isso ! Ela nem era fotógrafa, era repórter! E com aquela máquina, não ia fazer muita diferença! Além do mais, prá que correr, se a matéria não teria nenhum destaque ?

     Caminhara pela praia, disperso e nostálgico, como fazia desde que chegara de sua "outra vida", havia cinco anos. Seguindo a rotina que se impusera, sentara-se naquela pedra , que já considerava sua, e ficara observando com indiferença o cenário que já lhe era tão familiar. Sentia que aquele ponto solitário era um lugar diferente do resto do povoado.
     Um bando de gaivotas fazia evoluções sobre os barcos na baía, elevando seus grasnidos acima dos roncos das ondas que batiam na praia e do vento forte que dobrava os coqueiros atrás dele, numa grande algazarra. Observou alguns urubus, num andar pesado mas elegante, disputando alguns restos na areia da praia.
     O passado teimava em latejar no seu cérebro, apesar dos nomes e, principalmente, dos rostos ficarem cada dia mais distantes. Pensava, naquele momento, como tantas coisas haviam acontecido em tão pouco tempo. E como os fatos teimavam em se repetir, como as ondas do mar, que, apesar de tão diferentes umas das outras, são tão previsíveis.
Um grupo de crianças brincava na praia, num ruidoso alvoroço. Mais adiante alguns homens trabalhavam num barco e as batidas ritmadas de martelos as vezes eram trazidas pelo vento. O mesmo vento que também lhe trazia o cheiro dos peixes a pouco retirados das redes recolhidas pelos pescadores.
     Vieram-lhe à memória os momentos em que ali estivera pela primeira vez, ainda numa outra realidade. Lembrava-se, com certo gôzo, dos momentos prazeirosos que passara, sentado naquela praia, embalado por algumas doses de cerveja e pelos doces rumores da natureza à sua volta.
     Avistou uma figura que se dirigia lentamente para aquele canto da praia. O vento embaraçava seus cabelos e colava a saia nas pernas, revelando deliciosas formas femininas. Seu coração acelerou diante daquela visão. Os cabelos loiros emaranhados, o colorido das roupas e a leveza dos movimentos lhe turvaram os olhos que ansiosos procuraram mais algum detalhe que confirmasse a doce ilusão.
     Sentindo-se tonto, deixou-se cair sentado sobre a pedra, voltando seus olhos para baixo. O suor, a camisa grudada na pele, o tempo parado...
     Uma sombra cobriu suas pernas. Ergueu os olhos , o rosto virado para o sol, e viu o vulto da mulher que se projetava defronte da luz ofuscante e, aos poucos, ia tomando forma . Durante intermináveis segundos tudo ficou estranhamente silencioso e as batidas de seu coração pareciam ecoar por todo o cenário.
     - Bom dia ! - cantou , com voz melodiosa, a suave aparição.

     Aquele seria mais um dia terrível. Tanta dor. Tanta miséria. Algum tempo atrás achava impossível que pudesse resistir a tudo aquilo. Que pudesse, um dia, se acostumar. No entanto, hoje, aquelas cenas faziam parte da sua rotina e estranhava até, quando elas tardavam a acontecer.
     Sentia, entretanto, que algo de anormal acontecia ali. Havia alguma coisa no ar, como se , de repente, tudo fosse mudar. Sabia estar prestes a testemunhar um fato que mudaria para sempre a vida daquela comunidade. Nunca, nem mesmo quando ocorrera o incêndio no cais do porto ou o naufrágio do barco de turistas , presenciara tanto movimento nos corredores do hospital.
     O que, no começo, lhe parecera mais um simples caso de intoxicação alimentar, pela ingestão de peixe ou outro alimento contaminado - caso muito comum naquelas paragens, dada a absoluta e compreensível falta de higiene da população - havia se revelado uma verdadeira tragédia. Não haviam mais leitos disponíveis e os pacientes que continuavam a chegar eram enfileirados em macas no chão do corredor. Muito choro de criança e um cheiro azêdo, misto de urina e vômito, tomavam conta do ambiente, provocando náuseas nos que ali se encontravam apenas acompanhando outros doentes.
     Ainda por cima, como se não bastasse tudo aquilo, agora tinha sido destacado para atender as solicitações de esclarecimentos da imprensa da região. Sabia que precisaria de muita paciência no trato com jornalistas, mas a exaustão em que se encontrava e a rudeza que o calejara durante tanto tempo de contato com toda aquela pobreza, teimariam em se adiantar, como sempre, nas respostas que daria as perguntas imbecís que lhe fariam.

     No meio dos desertos imensos dos leitos dos açudes de lama ressequida , seres humanos disputavam as poças de água salobra com os animais enfraquecidos, de ancas arriadas e o couro rebentando pelos ossos pontudos. Urubus banqueteavam a carcaça de um boi, na beira da estrada esburacada, pela qual poucos se aventuravam.
     Na entrada de uma vila, que uma placa teimosamente chamava de cidade, a cidade de Santa Ana, os obstáculos colocados na pista para diminuir a velocidade dos veículos soavam como fina ironia. Chris diminuiu a marcha, de qualquer forma, mais pela curiosidade que alguns meninos despertaram.
     Posicionados ao lado dos obstáculos, procuravam vender saquinhos com frutas de nomes de difícil memorização. Meninos anêmicos, frágeis, angulosos, esculpidos no barro de um hábil artesão. Caranguejos, dependurados num cordão, se debatiam nas mãos de um dos garotos que, com seus dezessete anos, padecia num corpo de oito.
     As casas, todas de igual tamanho e formato, pobres e empoeiradas, muitas delas abandonadas, denunciavam o crime do assentamento de famílias de diferentes partes do país em terras áridas e sem nenhuma infraestrutura. Fora numa época de milagres econômicos, do qual aquela estrada foi uma das maiores bandeiras e na qual divídas gigantescas foram asfaltadas e muitas fortunas consolidadas.
     De repente, de trás duma jurema sêca cortou a estrada, desajeitado, um lagarto. Chris bem que tentou desviar, mas o bicho correu para a trilha da roda. Com o coração aos pulos, ela inda viu pelo espelho o animal se estrebuchando na pista. Dum juazeiro teimoso lamentou uma juriti.
     Uma carroça, puxada por um animal desnutrido e guiada por um velho que não sonhava, se arrastava mais adiante com dois barrís de água por entre as casas e almas castigadas pelo calor . Alguns quilometros antes ela vira a cacimba, onde provavelmente havia abastecido os barrís.
     E o out-door, em cores fortes, colocado estratégicamente na saída da vila, mandava que se bebesse o refrigerante da multinacional. Sempre.

Um comentário:

Vanessa disse...

Poxa, espetacular...devia publicá-los sim! Que encontre sempre tempo e disposição para continuar escrevendo.